top of page

Torneira da Travessa

  • Writer: Flavio Barollo
    Flavio Barollo
  • 7 hours ago
  • 3 min read

A Torneira da Travessa Roque Adóglio é um ponto de água de nascente em meio ao concreto da cidade. Ela não é decorativa. Ela não é simbólica no sentido abstrato. Ela existe para ser usada.


Essa torneira nasce de uma nascente urbana canalizada a aproximadamente 250 metros da travessa, antes que essa água limpa se perca no sistema de drenagem e se misture ao esgoto. A água corre até um pequeno lago construído coletivamente, com peixes e plantas, e depois segue para um tanque e uma torneira de uso público, instalada para quem precisa de água agora, não como ideia, mas como condição básica de existência.

Para muitas pessoas em situação de rua que circulam pela região, essa é a única fonte de água disponível. É ali que se lava o rosto. É ali que se lavam roupas. É ali que se tenta manter alguma higiene, alguma dignidade, alguma continuidade da vida cotidiana.

A Torneira da Travessa não resolve o problema da desigualdade urbana, mas interrompe, ainda que por instantes, a lógica da escassez imposta. Ela cria um ponto de respiro em uma cidade que esconde seus rios, privatiza suas águas e naturaliza a ausência de acesso ao que deveria ser um direito básico.

Desde sua construção, a torneira passou a fazer parte da vida do território. Pessoas param, conversam, observam o lago, perguntam de onde vem aquela água. Crianças se aproximam. Moradores do bairro reconhecem ali um gesto de cuidado. Pessoas em situação de rua encontram um mínimo de suporte para atravessar o dia.

Em determinado momento, a torneira foi destruída. Não por acaso. Não por falha técnica. Mas como resultado direto de disputas sobre o uso do espaço público, sobre quem pode existir na cidade e sobre quem tem direito à água.

A destruição da torneira revelou algo que já estava dado, mas nem sempre visível, água livre em território urbano é um ato político. Manter uma torneira pública funcionando, sem cobrança, sem catraca, sem vigilância, é confrontar a lógica da mercantilização da vida.

A torneira foi reconstruída parcialmente. Voltou menor, mais frágil, sem o tanque original, fruto de negociações, limites e concessões. Ainda assim, voltou. Porque não se trata apenas de infraestrutura, mas de insistência. Voltar a torneira a funcionar foi afirmar que aquele ponto de água não era um erro, mas uma escolha coletiva.

A Torneira da Travessa é também uma obra viva. Ela se conecta às ações artísticas do coletivo (se)cura humana, às performances, aos filmes, às ocupações do espaço público, mas não como cenário. Ela é parte do trabalho porque sustenta corpos reais, em tempo real. A arte aqui não ilustra a água, ela nasce da relação direta com ela.

Essa torneira afirma que água não é apenas recurso, é relação. Afirma que a cidade pode ser atravessada por gestos de cuidado, mesmo em meio ao abandono.Afirma que soluções simples, quando pensadas coletivamente, podem gerar impactos profundos.

Em uma cidade marcada pela privatização dos serviços básicos, pela invisibilização da população em situação de rua e pelo apagamento de seus rios, a Torneira da Travessa permanece como um ponto de resistência cotidiana. Um pequeno gesto hidráulico que revela um conflito maior, quem tem direito à cidade, quem tem direito à água, quem pode permanecer.

Enquanto houver água correndo, a torneira segue cumprindo sua função mais básica e mais radical, sustentar a vida onde ela costuma ser negada.








Comments


bottom of page